Da roça aos gramados: Crysthian Domingues segue em busca do sonho profissional


 Aos 23 anos, atleta de Machado (MG) busca uma nova oportunidade após dificuldades financeiras e uma grave lesão no joelho. Na retomada, um gol em uma final marcou a homenagem à avó, que sonhava em vê-lo jogando na televisão.

Aos sete anos, na comunidade rural do Papagaio, em Machado, no sul de Minas Gerais, Crysthian de Souza Domingues começou a construir uma relação com o futebol que atravessaria sua infância e juventude. Entre partidas na roça, campeonatos amadores e oportunidades em clubes, o menino encontrou um objetivo: tornar-se jogador profissional.

Hoje, aos 23 anos, ele continua buscando esse espaço. A caminhada, porém, passou por dificuldades que limitaram oportunidades, pela saudade da família nos alojamentos e por uma lesão no joelho que exigiu cirurgia e interrompeu sua sequência nos campos.

De volta aos treinamentos e às competições desde o início de 2026, Crysthian tenta recuperar seu melhor futebol. Ao falar sobre o que o faz continuar, menciona os pais, a própria vontade de vencer e uma lembrança especial: sua avó, já falecida, tinha o sonho de vê-lo jogando na televisão.

“Corro por mim, pela minha família e principalmente porque era um sonho da minha avó me ver jogando na TV”, afirma.

Uma paixão que começou em família

Filho de Maria Graziela e Alex Sandro Domingues, Crysthian vive em Machado e tem suas primeiras lembranças com a bola ligadas à comunidade do Papagaio, onde estão as raízes de sua família.

Ele conta que, mesmo muito novo, já atuava como titular nas partidas que disputava. A convivência com o jogo aumentou seu interesse pelo esporte e o incentivou a participar de campeonatos na cidade.

O futebol também estava presente dentro de casa. A paixão compartilhada pelos familiares ajudou a transformar a brincadeira da infância em um sonho que passou a orientar suas escolhas.

“Minha família inteira é apaixonada por futebol. Até minha mãe jogava bola”, relata.

Com a participação nas competições locais, vieram títulos e as primeiras possibilidades de buscar uma oportunidade fora de Machado. Uma delas surgiu com a ajuda de um vereador da cidade, que o levou para sua primeira avaliação.

As primeiras oportunidades e o peso dos custos

Aos 15 anos, Crysthian foi para o Comercial de Salto, em São Paulo. Segundo o atleta, como não pôde ficar alojado naquela ocasião, precisou fazer viagens de ida e volta para acompanhar as atividades.

A experiência durou cerca de dois meses. A distância e os custos, entretanto, tornaram difícil a continuidade, e ele retornou a Machado.

Pouco depois, durante um campeonato amador em São João da Boa Vista, uma nova possibilidade apareceu. Crysthian conta que um treinador o encaminhou para uma avaliação em Itapira. Aprovado, permaneceu por aproximadamente seis meses, com as despesas custeadas pelos pais.

O esforço da família foi fundamental para manter o jovem treinando. Ainda assim, os valores necessários para sua permanência voltaram a representar um obstáculo. Sem condições de continuar, precisou regressar para casa.

As interrupções não encerraram a busca. Crysthian seguiu treinando e participando de avaliações. Segundo seu relato, foi aprovado em testes no Grêmio, no Desportivo Brasil e no Palmeiras, mas não conseguiu dar sequência às oportunidades por falta de recursos.

Ao recordar esse período, o atleta descreve uma trajetória em que a disposição para jogar precisava conviver com os limites financeiros da família.

Apoio dos pais e escolhas difíceis

Crysthian afirma que recebeu apoio dos pais para perseguir o sonho durante a infância e a adolescência. As experiências fora de Machado, porém, exigiam gastos que pesavam no orçamento de casa.

Ao chegar aos 18 anos, a necessidade de contribuir com a renda familiar passou a fazer parte das conversas sobre seu futuro. Ele conta que a mãe desejava que começasse a trabalhar para ajudar nas despesas.

O relato mostra como a busca por uma carreira no futebol esteve ligada às condições da família. Além de treinar e tentar convencer nas avaliações, era necessário encontrar meios de sustentar a permanência longe de casa.

Mesmo diante dessas dificuldades, Crysthian continuou procurando oportunidades para desenvolver seu jogo.

Passagens por Poços de Caldas, Pouso Alegre e Itapira

Em outra etapa da caminhada, já com o acompanhamento de um empresário, Crysthian chegou ao Vulcão, em Poços de Caldas. Segundo ele, permaneceu por oito meses e teve a oportunidade de jogar com atletas profissionais.

A experiência foi interrompida no contexto da pandemia, que afetou a continuidade das atividades. Depois, passou pelo Pouso Alegre, conhecido como Pousão, onde ficou cerca de um mês.

Na sequência, voltou para Itapira, desta vez para defender o Independente Futebol Clube. Crysthian considera que vivia uma de suas melhores fases naquele período.

Foi durante as férias, quando retornou a Machado e decidiu disputar uma competição amadora em São João da Boa Vista, que sua trajetória sofreu uma mudança brusca.

A lesão que interrompeu a caminhada

Aos 15 minutos do primeiro tempo de uma partida, Crysthian rompeu o ligamento cruzado anterior, o LCA, e lesionou o menisco. A lesão exigiu cirurgia e o afastamento do futebol.

Depois de anos tentando superar dificuldades para permanecer nos clubes, ele precisou interromper os planos e dedicar um período à recuperação.

Crysthian conta que decidiu dar um tempo no futebol após o episódio. A volta aconteceu no início de 2026, quando retomou os treinamentos com foco e passou a disputar competições novamente.

Segundo o atleta, o retorno foi acompanhado de títulos em diversas competições. Mais do que os resultados, essa fase representou a possibilidade de voltar a jogar e renovar a esperança de buscar uma oportunidade no profissional.

Um gol na final e a homenagem à avó

Entre as lembranças da retomada, uma ocupa um lugar especial. Em um campeonato disputado em Campos Gerais, Crysthian conquistou o título, marcou na final e, segundo seu relato, foi destaque da partida.

Sua avó havia falecido uma semana antes. O gol foi dedicado a ela.

Ao escolher esse episódio como o momento mais marcante de sua trajetória, o atleta reúne dois acontecimentos importantes: a volta aos campos depois da cirurgia e a homenagem a alguém que acompanhava seu sonho.

A conquista teve um significado que foi além do resultado. Para Crysthian, aquele gol também guardou a memória da avó que desejava vê-lo jogar na televisão.

Essa lembrança continua presente quando ele explica por que ainda tenta alcançar o futebol profissional.

Intensidade, comunicação e maturidade

Dentro de campo, Crysthian se descreve como um jogador intenso, com personalidade e boa comunicação. Afirma que procura manter a disposição ao longo dos 90 minutos e destaca os gols e os lançamentos entre suas características.

A referência no futebol é o espanhol Sergio Ramos.

Ao analisar a própria evolução, porém, Crysthian vai além das qualidades técnicas. Ele considera que as experiências lhe trouxeram mais calma e sabedoria para lidar com as situações das partidas.

Depois de avaliações, mudanças de cidade, dificuldades financeiras e uma cirurgia, acredita ter amadurecido na maneira de jogar e de compreender sua trajetória.

A definição que escolhe para a caminhada é a de uma história de superação. Os obstáculos não desapareceram, mas passaram a fazer parte da experiência com a qual ele busca dar os próximos passos.

A saudade de casa nos alojamentos

Embora a lesão tenha interrompido sua sequência, Crysthian aponta a saudade da família nos alojamentos como o maior desafio que enfrentou no futebol.

Sair de Machado significava buscar desenvolvimento e novas oportunidades, mas também permanecer distante das pessoas que sustentavam emocionalmente seu sonho.

A família aparece em diferentes momentos do relato: nas primeiras partidas na comunidade rural, no apoio financeiro dos pais, nas escolhas sobre trabalho e futebol e na lembrança da avó.

É também a ela que Crysthian recorre ao explicar sua motivação para continuar. Sua busca por uma carreira nos campos está ligada à vontade de realizar algo que tem importância para todos eles.

O sonho profissional continua

Aos 23 anos, Crysthian deseja voltar ao nível que considera seu auge e conquistar uma oportunidade no futebol profissional. O retorno em 2026 renovou essa expectativa e o colocou novamente em contato com a rotina de treinos e competições.

Ele também reconhece o valor do futebol de várzea. Caso a oportunidade no profissional não se concretize, quer construir um nome respeitado nas competições amadoras.



O objetivo é seguir jogando, evoluindo e sendo reconhecido pelo que apresenta dentro de campo. Depois de tantas interrupções, a possibilidade de competir novamente já representa uma etapa importante dessa caminhada.

Da comunidade do Papagaio às experiências em outras cidades, Crysthian acumulou tentativas, conquistas e recomeços. Agora, busca transformar a retomada em um novo capítulo.

O sonho de chegar ao profissional permanece vivo. E, a cada vez que entra em campo, ele leva consigo a família que o ajudou a começar e a memória da avó que sonhava em vê-lo na televisão.

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