Conheça a trajetória do atleta de futebol Francisco Zicarelli
A história de Francisco Antonio Zicarelli, 26 anos, nascido no Rio de Janeiro e morador de Curicica, é um retrato fiel daquilo que o futebol raramente mostra com todas as cores: a construção silenciosa de um atleta que não nasceu pronto, não foi lapidado cedo, não era o mais habilidoso e nem o mais promissor. Filho de Maria Cícera da Silva e do italiano Francesco Zicarelli, Francisco começou sua caminhada no esporte aos 11 anos, graças ao convite de amigos que treinavam na tradicional escolinha Shalom, no bairro onde cresceu. A partir dali, sua vida tomou um rumo diferente ainda que ninguém pudesse imaginar o destino que o aguardava.
No início, a bola parecia mais inimiga do que amiga. Ele mesmo admite que não tinha noção de futebol. Era sempre o último a ser escolhido. Os amigos o zoavam, e até hoje brincam com as lembranças daquela época. Entre eles, estavam nomes que mais tarde seguiriam caminhos importantes: Guilherme Costa, que passou pelo Vasco; Thiago Medeiros, então no Flamengo; e Wagner Reis, que se tornaria personal trainer. Francisco estava longe desse nível. “Eu era o último de quem se esperaria virar jogador profissional”, lembra.
A virada emocional veio aos 15 anos, quando descobriu que queria viver do futebol. Era comum que ele chegasse das peladas humilhado pelas brincadeiras dos amigos, trancasse o quarto, se ajoelhasse ao lado da cama e chorasse enquanto orava, pedindo a Deus que realizasse seu sonho. Em janeiro de 2016, durante um período de testes no Flamengo, foi jogar uma pelada sem autorização da mãe e acabou quebrando o dedão do pé esquerdo. A lesão poderia ter sido o fim precoce de uma aspiração recém-nascida. Mas, mesmo com todos contra, inclusive parte da própria família, ele decidiu investir em si mesmo.
Em 2017, sua vida mudou. Começou a treinar com Jefinho, atual captador do Botafogo, que foi decisivo para moldar seu caráter, sua técnica e sua visão de mundo. “Ele teve a maior paciência do mundo comigo”, recorda. Com 18 anos, já enfrentava responsabilidades dentro de casa e uma pressão que nunca combinou com a idade que tinha. Mas seguiu firme. Um ano depois, entrou para a base do Duque de Caxias e disputou o Campeonato Carioca Sub-20. Teve contato frequente com o elenco profissional, mas ao fim da competição acabou dispensado.
O período seguinte seria marcado por testes, negativas e insistência. Mesmo reprovado em clubes pelo Rio de Janeiro, manteve a crença em uma promessa que sentia ter recebido de Deus. Treinava com Jefinho e jogava por equipes ligadas a empresários, lutando por qualquer oportunidade. Mas 2019 trouxe o golpe mais duro da sua vida: perdeu o pai, único que, desde o início, o apoiava no sonho de ser jogador. Foi o momento mais difícil de sua trajetória. Em seguida veio a pandemia, que o deixou ainda mais abalado, mas ao mesmo tempo o empurrou para uma dedicação ainda maior. Ele queria honrar a promessa feita ao pai: realizar o sonho dos dois.
Em 2021, aos 20 anos, teve a primeira grande porta aberta. Ingressou no time Sub-23 do Tigres do Brasil, que formava um elenco para disputar o Campeonato Carioca. Entre 25 atletas do grupo, apenas quatro seriam aproveitados pelo profissional e Francisco estava entre eles. Ali assinou seu primeiro contrato profissional, um marco que ele jamais esqueceria.
O fim do Carioca trouxe uma oportunidade internacional. Fez um acordo com o Tigres e seguiu para a Croácia em fevereiro de 2022. Lá, viveu uma temporada mágica. Tornou-se bicampeão, vencendo o Kup Međimurja e a 1ª liga de Međimurje. Seu nome aparece em matéria croata como parte do elenco responsável por uma campanha histórica, marcada por 18 vitórias consecutivas. A diretoria do NK Nedelišće o cita como fundamental no desempenho extraordinário. Na foto principal da celebração, está lá: integrado ao grupo campeão, imortalizando um momento que ficaria gravado na história do clube e na sua própria. No ônibus, após a final, chorou como nunca. Chorou por saudade. Chorou por vitória. Chorou pelo pai, que tanto quis que estivesse ali.
Oportunidade de atuar na Croácia
Depois do auge, vieram novos desafios. Fez testes na Suíça e rompeu pela primeira vez o tornozelo esquerdo. Voltou à Croácia e foi emprestado para outra equipe, mas não conseguiu se adaptar. Frustrado, retornou ao Brasil. Em 2023, longe do futebol, passou a trabalhar em um bar de piscina em um condomínio. Foi ali que conheceu o jogador Emmanuel Dennis, do Nottingham Forest, da Premier League, que o levou para a Inglaterra para treinarem juntos. Era uma porta aberta no momento em que mais precisava.
Em agosto, assinou contrato com o Itumbiara Esporte Clube, mas a FIFA negou sua transferência. Voltou ao Brasil novamente, carregando outra frustração. Trabalhou em pequenos serviços até que, em fevereiro de 2024, o presidente de um clube croata o chamou de volta. Jogou bem, retomou o ritmo e estava prestes a disputar dois jogos decisivos de acesso, quando uma nova lesão aconteceu durante um treinamento: torceu o tornozelo. Aceitou um tratamento emergencial e jogou — mesmo com dor — os últimos três jogos da temporada.
Ao fim do campeonato, recebeu uma ligação de um treinador na Suíça. Aceitou imediatamente. Na véspera do início da competição, durante o último amistoso de pré-temporada, rompeu o tendão de Aquiles. Operou na Itália, iniciou o tratamento na Suíça e, emocionalmente abalado, decidiu voltar ao Brasil. Desde então, tem se dedicado à reabilitação física e mental, encontrando força na fé e na promessa que carrega desde a adolescência.
Entre suas maiores conquistas, as mais marcantes foram, sem dúvida, os títulos conquistados na Croácia. O bicampeonato em sua primeira temporada fora do Brasil não só mudou sua carreira, como o colocou na história do NK Nedelišće. Para Francisco, ver seu nome em uma matéria internacional como peça-chave de uma campanha perfeita é um sentimento que transcende o futebol. É a prova de que todo esforço, dor e renúncia tiveram propósito.
Hoje, Francisco se define como um volante versátil, capaz de atuar também como zagueiro. Sua função é dar equilíbrio: marcar, recuperar, construir e organizar. Traz intensidade, leitura de jogo, força física e responsabilidade tática. Sua personalidade em campo reflete sua história: competitiva, firme, disciplinada e resiliente. Lidera pela atitude e transmite segurança em cada minuto jogado.
Sua fé é o eixo que o sustenta. Para ele, Deus é tudo. É o motivo pelo qual não desistiu nas piores fases, o alívio em meio às lesões, o consolo na dor da saudade, o combustível para seguir mesmo quando o mundo parecia desabar. “Deus me levanta quando eu penso em desistir”, diz.
Ao olhar para trás, Francisco reconhece que não era o mais talentoso, não começou cedo, não teve apoio total da família, não teve facilidades. Teve que amadurecer rápido, enfrentar outros países e línguas, lidar com solidão, pressão e incertezas. Mas tudo isso o transformou em um atleta mais completo, mais consciente e mais forte.
Ao olhar para o futuro, se vê consolidado, experiente, disputando grandes competições e deixando sua marca no futebol. Quer construir carreira sólida na Europa, crescer tecnicamente, taticamente e fisicamente. Quer ser exemplo. Quer honrar o pai. Quer honrar a Deus.
Se pudesse dar um conselho a quem está começando, diria para acreditar em si mesmo mesmo quando ninguém acredita. Porque, no futebol, o atleta apanha da vida, do corpo, da mente, da pressão, da saudade. Mas é justamente nessa porrada que se constrói. Que se cria casca. Que se cresce.
A trajetória de Francisco Antonio Zicarelli é a prova viva de que o futebol é mais do que um esporte. É propósito, é renúncia, é dor, é superação e é fé. E, apesar das quedas, das lesões e das pausas forçadas, ele segue — firme, determinado e guiado pelo mesmo sonho que o fez chorar ao lado da cama quando era apenas um menino de Curicica tentando tocar a bola pela primeira vez.
Sua história ainda está longe do fim. E tudo indica que os capítulos mais importantes ainda estão por vir.








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